Menino, 3 anos de idade, é levado ao pronto atendimento por febre de início há 5 dias, cefaleia e exantema, já resolvidos. Responsável refere que o menor está sem febre há cerca de 36 horas, mas que há um dia começou a se queixar de muita dor abdominal, sem períodos de melhora; apresentou 10 episódios de vômitos nas últimas 4 horas e teve um episódio de “quase-desmaio”. Ao exame físico, a criança está irritada, afebril, frequência cardíaca de 138 de bpm, frequência respiratória de 36 ipm, desidratada de algum grau, PA de 82x60 mmHg, tempo de enchimento capilar de 2 segundos. Restante do exame clínico sem alterações. Após realização de torniquete para obtenção de um acesso venoso, foram notadas as seguintes lesões na fossa antecubital:

A pegadinha é tranquilizar-se porque a febre cessou: a fase crítica da dengue começa frequentemente na defervescência.
Dor abdominal contínua, vômitos persistentes e lipotimia são sinais de alarme.
Hematócrito subindo indica extravasamento plasmático; hematócrito caindo com instabilidade pode indicar hemorragia.
Prova do laço positiva apoia fragilidade capilar, mas não define isoladamente gravidade.
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Contexto
A criança teve síndrome febril com exantema e evoluiu, logo após a defervescência, com dor abdominal contínua intensa, vômitos persistentes, lipotimia, taquicardia e pressão arterial de 82 por 60 mmHg. A diferença entre as pressões sistólica e diastólica é de apenas 22 mmHg, próxima do padrão de pressão de pulso estreita observado no comprometimento circulatório. As petéquias provocadas pelo torniquete representam prova do laço positiva. O conjunto sugere dengue na fase crítica com sinais de alarme e início de extravasamento plasmático.
O manual Dengue: Diagnóstico e Manejo Clínico, Adulto e Criança, do Ministério da Saúde, 6ª edição de 2024, destaca que os sinais de alarme surgem frequentemente no período de queda da febre. Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, lipotimia, letargia, acúmulo de líquidos e aumento progressivo do hematócrito exigem reconhecimento imediato.
O exame esperado combina leucopenia e plaquetopenia com hemoconcentração. A elevação de hemoglobina e hematócrito reflete perda de plasma para o espaço extravascular, enquanto a massa eritrocitária permanece intravascular. A tendência seriada do hematócrito é mais informativa que um único valor, mas hemoglobina de 15,2 g/dL e hematócrito de 48% são elevados para a idade e, associados a plaquetas de 70 mil por microlitro e leucócitos de 3.800 por milímetro cúbico, sustentam o diagnóstico.
Alternativa por alternativa
A) Incorreta. Leucocitose de 26.800 por milímetro cúbico com metamielócitos e bastões sugere resposta bacteriana com desvio à esquerda. Não é o padrão hematológico típico da dengue na fase crítica.
B) Incorreta. Anemia, leucopenia profunda, plaquetopenia extrema e blastos sugerem infiltração ou falência medular, como leucemia aguda, e não hemoconcentração por extravasamento plasmático.
C) Incorreta. Eosinofilia de 30% não é característica de dengue e direciona o raciocínio para parasitoses, alergias, reações medicamentosas ou outras doenças eosinofílicas.
D) Correta (gabarito). Hemoglobina e hematócrito elevados, leucopenia e plaquetopenia formam o padrão compatível com dengue na fase crítica e extravasamento plasmático.