Paciente, 40 anos de idade, secundigesta com parto vaginal anterior, sem doenças, retorna em pré-natal com 24 semanas de gravidez e apresenta os exames a seguir: Ultrassonografia: feto único, vivo, apresentação pélvica com dorso à esquerda. Placenta posterior Grannum 0. Peso fetal estimado 780 g (p90). Observa-se ascite e derrame pleural laminar fetal. Doppler de artéria umbilical normal, pico sistólico de artéria cerebral média de 52 cm/s (mediana para 24 semanas = 30,7 cm/s).
A pegadinha é atribuir toda hidropisia à infecção: pico sistólico da cerebral média acima de 1,5 múltiplo da mediana indica anemia.
Hidropisia é líquido anormal em pelo menos dois compartimentos fetais.
Anemia grave suspeita exige centro especializado, cordocentese e preparo para transfusão intrauterina.
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Contexto
Ascite e derrame pleural representam líquido em dois compartimentos fetais e configuram hidropisia. A gestante é Rh negativa e tem pesquisa de anticorpos irregulares positiva, combinação que aponta para aloimunização eritrocitária. A hemólise fetal progressiva reduz a capacidade de transporte de oxigênio, causa estado hiperdinâmico, insuficiência cardíaca de alto débito e, nos casos graves, hidropisia.
O pico sistólico da artéria cerebral média é 52 cm/s, enquanto a mediana fornecida para 24 semanas é 30,7 cm/s. A razão é aproximadamente 1,69 múltiplo da mediana. A Diretriz da Society for Maternal-Fetal Medicine sobre anemia fetal, reafirmada em 2025, considera pico sistólico acima de 1,5 múltiplo da mediana ou presença de hidropisia como forte indicação de anemia fetal moderada ou grave e recomenda avaliação em centro de terapia fetal, com cordocentese preparada para transfusão intrauterina.
A velocidade aumenta porque a anemia reduz a viscosidade sanguínea e eleva o débito cardíaco cerebral. O VDRL de baixo título com FTA-ABS negativo não confirma sífilis; toxoplasmose IgG positiva e IgM negativa indica infecção passada; e a urocultura positiva não explica o Doppler cerebral nem a hidropisia.
Alternativa por alternativa
A) Correta (gabarito). Hidropisia, aloanticorpos maternos e pico sistólico da cerebral média de 1,69 múltiplo da mediana formam o padrão clássico de anemia fetal por aloimunização.
B) Incorreta. Infecções congênitas podem causar hidropisia, mas as sorologias apresentadas não documentam infecção aguda e não explicam tão diretamente o aumento do pico sistólico cerebral.
C) Incorreta. Cardiopatia estrutural pode produzir hidropisia, porém não há malformação cardíaca descrita. O marcador Doppler apresentado foi escolhido especificamente para rastrear anemia.
D) Incorreta. A glicemia materna é normal. Diabetes pode causar macrossomia e cardiomiopatia fetal, mas não justifica aloanticorpos positivos nem pico sistólico cerebral acima de 1,5 múltiplo da mediana.